quinta-feira, abril 07, 2011

Versos do dia: Ando Só (Engenheiros do Hawaii)



ando só
pois só eu sei
pra onde ir
por onde andei
ando só
nem sei por que
não me pergunte
o que eu não sei

pergunte ao pó
desça o porão
siga aquele carro
ou as pegadas que eu deixei
pergunte ao pó
por onde andei
há um mapa dos meus passos
nos pedaços que eu deixei

desate o nó
que te prendeu
a uma pessoa que nunca te mereceu
desate o nó
que nos uniu
num desatino
um desafio

ando só
como um pássaro voando
ando só
como se voasse em bando
ando só
pois só eu sei andar
sem saber até quando
ando só

quarta-feira, abril 06, 2011

Versos do dia: White Stripes (Little Acorns)



Depois de livros e filmes de auto-ajuda chegou a vez das músicas de auto-ajuda!

Little Acorns é um rockão de primeira... mas também é a inauguração desse novo filão... começa com uma narração de como a superação pode vir da observação da natureza (um esquilo estocando nozes para o inverno que se aproxima) e continua a pegada rocker com o refrão "faça como o esquilo, garota!". Sensacional é pouco... chega a ser estupendo.

E os versos do dia são:
Take all your problems... and rip 'em apart
And another thing that you should know from the start
the problems in hand are lighter than at heart

terça-feira, abril 05, 2011

Up In the Air/Amor sem Escalas/Nas Nuvens

Recentemente eu reassisti Amor Sem Escalas e o filme passou muito bem pela revisita. Aviso: os comentários a seguir relatam detalhes da estória.

A propósito, o título brasileiro vende a estória como uma comédia romântica e até contradiz a narrativa apresentada na película, pois se há um amor que nasce isso se dá após várias escalas e se há esse novo sentimento surgindo no personagem Ryan Bingham (George Clooney) não é, acredito eu, amor por alguém mas por um conceito.

Falando em títulos e traduções, cabe dizer que a versão que assisti - download ilegal - é a portuguesa. Lá na terrinha, o filme foi batizado de "Nas Nuvens", o que é um título mais adequado mas remete, ao menos para mim, mais a uma alienação do que ao fato do personagem ter suas convicções sobre a vida, ainda que questionáveis no quesito humano e de interações mais intensas.

Finalmente, tomemos então o título original: No ar (Up in the Air). Simples assim, o título me remete a uma sensação de leveza, de "levitação". E, no contexto do filme, isso me leva às palestras "motivacionais" perpetradas por Bingham no decorrer do filme. Nessas palestras Bingham pede para a audiência encher uma mochila imaginária inicialmente com coisas materiais de nosso cotidiano, inicialmente coisas pequenas chegando até itens como carros e casas... e, num segundo momento, adicionando também pessoas à mochila. Depois, ironicamente, ele pede para que ao sentirmos todo o peso da mochila, tentemos dar um passo. A idéia é de que a felicidade está no movimento e de que ao nos apegarmos a coisas e pessoas impedimos que esse movimento se dê com a facilidade que deveria.
 
No fundo, acredito que esse é o verdadeiro tema do filme, a transformação do personagem de mochila vazia, alguém alheio a contatos, compromissos, interações mais profundas, em alguém que quer dividir sua vida, partilhar seus momentos e suas conquistas, viver em família. Uma mudança de conceito.

E essa é basicamente a estória que assistimos. Bingham apresenta o ar (avião) e os aeroportos como sendo sua casa. Apresenta também seus sonhos e suas metas frias, numéricas, vazias. E no decorrer do filme, acompanhamos as modificações em sua visão de mundo causadas por suas interações com a jovem, idealista e entusiasmante Nathalie (talvez a melhor personagem do filme), sua paixão por sua versão feminina, a mulher perfeita para alguém como ele, Alex e o seu envolvimento com sua família em uma tímida e involuntária participação no casamento da irmã. E como isso tudo, somado, aos poucos vai trazendo-o de volta ao chão, de maneira cada vez mais permanente. E o chão, neste caso, simbolizando apenas e tão somente o oposto do ar que o caracterizava ao princípio.

Portanto, neste leitura, não é a toa que ao ser forçado a montar base em uma única cidade (não mais voar... como sempre ameaça seu patrão) ele já não mais seja capaz de proferir o discurso sobre a mochila vazia. Agora a transformação está completa e ele não consegue mais se ver sem a família reconquistada, sem a busca de alguém com quem viver, sem se envolver e valorizar aqueles que são capazes de se envolverem. 

Filosofando um pouco, até consigo entender o final de certa forma pessimista para o personagem central. Após uma vida de desinteresse pelos outros - como representar isso melhor do que dando ao personagem a profissão de alguém que trabalha demitindo pessoas? - fazia todo o sentido que ele não conseguisse uma guinada de 180 graus tão rapidamente, apenas por que assim decidiu. Não, certos esforços precisam de tempo para que a recompensa venha e o grande mérito de Bingham é notar que sua mochila não pode ficar vazia para sempre, que movimento contínuo pode não ser a melhor resposta, que existem coisas a se valorizar um pouco além do materialismo frio e da vida livre para todas as oportunidades. Por vezes, temos sim que colocar coisas em nossas mochilas e zelarmos por elas. E mantermo-nos alertas para que, caso o peso comece a nos fazer tombar, tenhamos a sabedoria de novamente esvaziarmos a mochila para seguirmos avançando. A vida não precisa ser vivida com uma mochila vazia mas sim com uma mochila confortável, que nos faça bem.

domingo, abril 03, 2011

Biomas

Bati essa foto em Toulouse. Era uma quinta-feira, 31/03. Era o último dia do mês. E foi o início de uma nova percepção que se apossou de mim. Um novo olhar para coisas já vistas, já cansadas, por vezes até mesmo desgastadas.

Nunca fui uma pessoa voltada para a natureza. No velho debate campo x cidade me considero um urbanista. E as árvores, fáceis de achar uma vez que paradas no chão, citando o mestre Antunes, nunca me despertaram nenhum interesse em especial. Cresci sobre elas, apanhei vários de seus frutos durante a infância e é inevitável pensar em uma aconchegante rede quando observo duas árvores com a distância adequada e troncos suficientemente fortes. Fora isso elas passavam, ou ficavam, por mim despercebidas.

Mas, em Toulouse, escapando para tomar um ar durante um dia de apresentações de trabalhos científicos em uma unidade do Centro Nacional de Pesquisa em Agronomia (INRA), uma visão prosaica, corriqueira, como a da foto acima, tocou-me de maneira especial. Detive-me por alguns minutos a observar a composição da cena, os pequenos arbustos, a trepadeira sobrevivendo sobre o tronco, o solo rico e provendo nutrientes não só para as plantas mas para vários pequenos insetos e outros animais, passáros cantando e pousando sobre essa e outras árvores ao redor, formigas que habitam a pequena castanha que tenho à mão. E a beleza de cada uma dessas coisas e da interação entre elas me mudaram.

Talvez o que tenha me afetado de maneira mais profunda tenha sido enxergar a interdependência e o respeito entre esses seres. E a harmonia que as regras da vida soube impor.

Dois dias depois estava jantando na casa de um amigo, celebrando o aniversário de sua esposa. Primavera chegou, momento de exibir, satisfeito, as diversas variedades de plantas em seus vasinhos, na sacada. Pequenas plantas que após o mortal inverno ressuscitam como que dotadas de uma alma de fênix. Cada pequena nova flor, folha ou ainda apenas uma pontinha mais verde do que o restante do caule era mostrado por meu amigo com um orgulho de pai.

E é gozado pensarmos em como nos relacionamos diferentemente com pessoas (ou animais) e com as plantas. Para elas podemos interagir nos dando. Damos atenção, damos carinho, adubamos, esperamos sempre pelo melhor, pelo crescimento, para que sobreviva, cresça feliz e saudável. E depois observamos. E a resposta que temos não é imediata. Não se pode ser ansioso para se apreciar uma relação assim, temos que dar e depois observar. E, satisfeitos como pais, nos orgulhar quando nossos pequenos brotos desabrocham, saltam para a vida, reverdejam. E assim também deveria ser com nossos amigos, com nossos amores. Darmos, esperarmos e observarmos. Pois também com nossos relacionamentos vivemos em um bioma em que a interdependência e o respeito deveriam ser a receita para a harmonia.

Passei a respeitar muito mais quem se dedica a criar plantas. Seja no inverno ou em qualquer uma das estações.

Versos do dia: Moska em dose dupla.

Hoje foi um dia de ouvir Paulinho Moska. Na verdade... isso até começou ontem.

E foi difícil escolher qual canção iria ilustrar essa seção do blog para representar esse momento. Indecisão por indecisão, decidi não decidir. A Seta e o Alvo e Meu Pensamento Não Quer Pensar compõem, juntas, os versos do dia.



Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.

Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.

Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.



Meu pensamento não quer pensar
ele está com preguiça de se levantar
Depois de um sono tão profundo
é duro acordar e ver que no mundo
tudo é novidade, mas eu já conheço
Então volto a dormir que é pra ver
se me esqueço

Que meu pensamento não quer pensar
e para apreender eu vou ter que apanhar
pois só assim que o ser humano evolui
Só assim serei o que nunca fui
Tudo é tão velho e eu ainda nem nasci
O tempo nunca passou e eu nem percebi

Que o meu pensamento não vai pensar
enquanto eu não fizer seu coração vomitar
toda a consciência que não o deixa em paz
com os mesmos padrões de séculos atrás
com as mesmas paixões por coisas
absolutamente banais.